SCN – esporte e antirracismo

Oioioi!

Continuando nossa Semana da Consciência Negra, o terceiro post é uma reportagem sobre Peter Norman, um homem branco que, no auge de sua carreira preferiu ser rechaçado pelos seus “pares” nacionais, do que ver o preconceito e racismo continuarem tomando conta do esporte mundial.

Em 1968, o australiano Peter Norman participou das Olimpíadas de Verão na Cidade do México, representando seu país, e ficou em segundo lugar. Dividindo o pódio com ele estavam os americanos Tommie Smith (em primeiro) e John Carlos (em terceiro).

Tudo parece normal até aqui. E mesmo que eu diga que os dois americanos eram negros, espera-se que isso não faça diferença: temos vários nomes de negros vencendo competições olímpicas, principalmente de velocidade. Porém não podemos nos deixar enganar. Em 1968 o mundo ainda era hostil aos não brancos, fossem negros africanos ou “negros da terra” (povos autóctones), e vários países viviam a dicotomia dos grupos brancos no poder e a grande parte da população (pobre e marginalizada) negra.

Essa dicotomia se traduzia no movimento negro organizado em diversas instâncias, lutando por direitos, reconhecimento e igualdade.

Norman era um branco natural da Austrália, um país que tinha leis de apartheid rigorosas, quase tão rígidas como as da África do Sul. Havia tensão e protestos nas ruas da Austrália na sequência de pesadas restrições a imigração não-branca e a leis discriminatórias contra os aborígenes, algumas das quais consistiam em adopções forçadas de crianças nativas a famílias brancas. (Geledés, 26 out. 2015)

No esporte essa luta fazia parte do Projeto Olímpico para os Direitos Humanos – grupo que buscava mostrar a realidade dos atletas afro-americanos (estendendo-se à realidade do preconceito racial em todo o mundo) e combatê-la.

Smith e Carlos decidiram utilizar suas posições no pódio para protestar: descalços, simbolizando a miséria do povo negro, e com uma luva preta na mão, em apoio à causa dos Panteras Negras, os dois levantaram os braços de punhos fechados e ficaram em silêncio durante o hino nacional norte-americano.

blackpanther

E o que tinha Peter Norman a ver com tudo isso? Acontece que Peter Norman não apenas dividiu o palco com os dois negros americanos, como apoiou a causa dos dois. Além da luva, do braço erguido e dos pés descalços, um detalhe chama – ou deveria chamar – atenção: eles usavam um adesivo, o adesivo do Projeto Olímpico para os Direitos Humanos. Eles TRÊS usavam.

Como forma de apoio aos colegas, que para Peter Norman não eram menos do que seres humanos como ele próprio, independente da cor da pele, ele usou também o adesivo durante sua passagem pelo pódio. Atitude essa que lhe causou muitos problemas para o resto de sua vida.

O apoio de Norman é ainda mais valoroso por não tentar protagonizar a luta dos negros. Ele não era um branco usando a simbologia própria da luta negra. Ele era um branco usando um adesivo que simbolizava seu apoio à essa luta.

A vida continua…?

Bem, Peter Norman voltou para a Austrália mas não teve o reconhecimento merecido. Nas olimpíadas de 1972 se classificou mas não foi chamado para participar da equipe australiana, sendo sumariamente excluído do esporte de competição, relegado ao esquecimento.

Na sua Austrália branqueada, resistindo à mudança, ele foi tratado como um estranho, a sua família foi proscrita e incapaz de arranjar trabalho. Trabalhou uns tempos como professor de ginástica, continuando a lutar contra as desigualdades como sindicalista e trabalhando ocasionalmente num talho. (Geledés, 26 out. 2015)

A Austrália, que, na época, vivia uma espécie de apartheid próprio, demorou até 2012 para reconhecer o valor do maior velocista de sua história, e também reconhecer a necessidade de um pedido formal de desculpas a Peter Norman, que havia morrido em 2006.

Durante anos, Norman teve a possibilidade de voltar a ser alguém para seu país: condenando publicamente seus colegas de pódio e se arrependendo do que fez. Peter Norman morreu no ostracismo ao qual seu país o relegou, sem poder seguir seus sonhos – mesmo tendo todas as qualificações possíveis – e sem receber o reconhecimento necessário e merecido.

Nas palavras de John Carlos:

“Se nós fomos espancados, Peter enfrentou um país inteiro e sofreu sozinho.” (Geledés, 26 out. 2015)

Nas palavras do próprio Peter Norman:

“Não podia ver por que razão um negro não podia beber a mesma água de uma fonte, apanhar o mesmo autocarro ou ir à mesma escola que um branco. Havia uma injustiça social contra a qual nada podia fazer a partir de onde estava, mas que detestava. Foi dito que ter partilhado a minha medalha de prata com aquele incidente no estrado da vitória diminuiu o meu desempenho. Pelo contrário. Tenho de confessar que fiquei muito orgulhoso por fazer parte dele.” (Geledés, 26 out. 2015)

Abaixo, um documentário sobre esse momento que mostrou que o esporte é muito mais do que apenas esporte, é sociedade, identidade, política, realidade.

 

Veja mais em…

O homem branco naquela fotografia, do site Geledés. 26 ou. 2015.

Hoje na História: 1968 – medalhistas olímpicos são punidos por protesto contra discriminação racial, do site OperaMundi. 17 out. 2010.

Ongoin Aboriginal Genocide and Aboriginal Ethnocide by Politically Correct Racist Apartheid Australia, por Dr. Gideon Polya. 16 fev. 2014.

“I will stand with you”: finally, an apology to Peter Norman. 12 out. 2012.

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